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O fator Bolsonazi, a direita envergonhada e a “tempestade perfeita”

(Igor Fuser) O presente cenário pré-eleitoral permite que se digam duas coisas com algum fundamento:

1. Na ausência de Lula como candidato, não se pode descartar a possibilidade de que o candidato fascista consiga alcançar seu objetivo.

2. A parcela do campo político e da opinião pública que manifesta repúdio à ideias, à conduta e à "persona" do Bolsonazi, mas ao mesmo tempo endossa ou tolera a perseguição judicial desonesta que deve culminar com o veto à candidatura de Lula, contribui na prática para o avanço e talvez até para o triunfo dessa figura tão detestável.

O postulante da extrema-direita, a esta altura, parece consolidado em setores expressivos do eleitorado. Calcula-se entre 15% e 20% a parcela dos que se identificam com o estilo truculento do Bolsonazi, o baixo nível moral e intelectual de suas declarações, a farsa do "antipolítico", o ódio a tudo o que cheire a esquerda, o estilo palhaço à la Trump. Para essa faixa, não existe argumento ou fato novo, nem debate nem nada, capaz de abalar a decisão de voto. Soma-se a isso a adesão crescente da alta burguesia à alternativa fascista, no fenômeno que meu amigo Gilberto Maringoni acaba de sintetizar em um brilhante comentário intitulado, em modo autoexplicativo, "O empresariado ligou o foda-se".

Bolsonazi cresce no vácuo deixado pela incompetência do chamado "mercado" em encontrar candidato viável, capaz de agregar um verniz de respeitabilidade ao projeto de destruição nacional e vandalismo social que constitui a essência da aventura golpista. Geraldo Alckmin, tido até algum tempo atrás como o nome "natural" para estabilizar a supremacia dos "donos do PIB" (os banqueiros da Avenida Paulista, os oligarcas do agronegócio, a Rede Globo), naufraga a olhos vistos. É claro, talvez ainda exista a chance de, no desespero, mobilizar-se o aparato midiático para salvar o "picolé de chuchu", numa derradeira operação repescagem. Mas não se vê quem acredite nessa possibilidade. Os demais nomes do neoliberalismo puro são risíveis (Flavio Riachuelo Rocha, Álvaro Dias, Henrique Meireles). Nem vou perder tempo aqui em comentá-los.

A opção que resta aos setores do grande capital até agora imunes à tentação fascista (que, em contraste com o título do clássico filme de Buñuel, não é discreta nem charmosa), é aquela mesma, Marina Silva, a silenciosa pescadora de águas turvas, sempre disponível para desempenhar seu papel no script do conservadorismo disfarçado.

Não resolve muito, né? Em eleições anteriores, a pessoa já mostrou sua fragilidade como liderança política, algo que deve se expor com evidência ainda maior no momento complicado que vivemos. Não é à toa que anda tão calada. Desta vez, ela adentrará a arena dos leões sem o aditivo emocional da tragédia aérea que vitimou Eduardo Campo, de quem era vice em 2014. Ainda assim, não se pode descartar que Marina, alavancada pela mídia e pela grana, acabe amealhando um contingente de votos suficiente para levá-la ao segundo turno. Para isso, são necessárias duas condições: a falta absoluta de outras opções à direita capazes de serem abraçadas por quem costuma comer com garfo e faca, e um curto-circuito eleitoral no campo da esquerda.

Sim, curto-circuito, esse é o fantasma que ronda a esquerda/centro-esquerda, os progressistas, os antigolpistas ou como se prefira chamar o lado dos que desaprovam o retrocesso geral em marcha no país. A candidatura de Ciro Gomes é um fato consumado, nada o fará voltar atrás, e seu apelo certamente crescerá na medida em que dissemine a ideia de que, no final da estrada, o nome de Lula estará ausente na maquininha do voto. Um eventual apoio do PT (e de Lula) a Ciro – o que lhe daria um impulso fortíssimo e, com certeza, o favoritismo no segundo turno – aparece no momento como algo improvável, e existem motivos sólidos para isso.

Não se pode condenar o PT por insistir em apresentar candidato próprio. É o maior partido do país, tem toda uma história, uma identidade, uma presença na vida brasileira que se mantém como referência, comprovada em pesquisas, apesar do linchamento político de que a agremiação tem sido vítima há muitos anos e contra o qual pouco conseguiu fazer. Lula, mesmo preso, lidera qualquer pesquisa em que seu nome seja incluído. A renúncia uma candidatura petista, ainda mais em favor de um Ciro cujo comportamento sinaliza mais ambiguidade do que firmeza, pode ter consequências graves, com efeitos muito além do contexto eleitoral.

A expectativa é de que Lula indique outro nome petista no momento em que se materializar o veto da burguesia à sua presença nas urnas. Não se sabe em que medida o maior líder popular da história brasileira conseguirá transferir os 30% de preferências atribuídas a ele nas pesquisas a outro candidato ou candidata, a tempo de garantir para @ substitut@ uma vaga no segundo turno. Sua condição de prisioneiro impede que percorra o país para pedir votos, como fez em favor de Dilma Rousseff em 2010. E entre os nomes até agora cogitados no PT, todos eles portadores de grandes virtudes, não aparece, contudo, nenhum que sinalize maior atratividade junto aos eleitores, ainda mais quando se pensa num pleito nacional.

Desenha-se, assim, o risco de uma "tempestade perfeita", um pesadelo que vai além da esquerda para envolver todos os que são efetivamente antifascistas. Na disputa para definir quem enfrentará a besta-fera (mais besta do que fera) no segundo turno, Ciro e @ "petista X apoiad@ por Lula" se neutralizariam mutuamente. O curto-curcuito, com a involuntária contribuição de uma (também inevitável) candidatura de Guilherme Boulos correndo por fora, sem chances, e talvez ainda a de Manuela d'Ávila, abriria espaço para a ascensão de uma Marina Silva fraquíssima. Sem propostas, carisma ou coerência, a candidata verde-evangélica chegaria ao segundo turno cambaleante, diante de um adversário empoderado por uma robusta votação e pelo entusiasmo crescente de amplas parcelas da burguesia e da classe média paneleira – os órfãos do tucanato, agora em aberta lua-de-mel com o fascismo.

A experiência na política, reforçada pelos piores calafrios, indicará ao campo progressista, claramente, o que fazer num segundo turno a ser disputado nesse cenário de catástrofe. Será a hora de tampar o nariz, fechar os olhos e, com a outra mão, enfiar rapidamente o dedo no excremento, escolhendo o mal menor. Mas quantos serão os brasileiros e brasileiras dispostos a um exercício tão sofisticado de racionalidade maquiaveliana?

As abstenções, em uma paisagem tão melancólica, tendem a disparar a níveis sem precedentes. Quanto menor o comparecimento às urnas, maiores as chances daquele que elogia o estupro e aplaude torturadores. E não faltarão os eleitores que, imersos no analfabetismo político e no clima de confusão geral que a fascistaiada é perfeitamente capaz de criar nas redes sociais, transitem de um voto à esquerda no primeiro turno para o embuste de uma opção "anti-sistêmica" no segundo.

Evidentemente, não creio que qualquer raciocínio, muito menos um cálculo hipotético como o aqui apresentado (e que pode virar fumaça em poucos dias ou semanas), possa induzir setores liberais que se deixaram levar pela histeria antipetista mas, ainda assim, continuam encarando a si mesmos como "democratas", a alterarem sua postura rígida, cruel, impermeável a fatos e a argumentos, diante da condenação e do veto à candidatura de Lula, mesmo depois de amplamente demonstrada sua inocência e a dimensão inominável da atrocidade jurídica cometida contra ele.

Mas aqui se trata de uma realidade objetiva, mais do que de intenções e sentimentos. Essa gente, tão limpinha e educada, muitos deles nossos antigos parceiros na luta contra a ditadura militar e pelas "diretas-já", fãs de FHC e potenciais eleitores de Marina, o liberalismo "civilizado" pode dar o empurrão decisivo para o mergulho do Brasil nas trevas do fascismo.

Professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC)

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