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Escola: Palestras motivacionais e o risco de obliteração da realidade

As palestras tipificadas como motivacionais, aquelas que, em linha gerais, visariam, como o próprio nome indica, “motivar” pessoas para atuarem em equipe visando determinados fins, ou mais precisamente o aumento de produtividade, têm ganhado espaço, cada vez maior, em diferentes dimensões da sociedade. Este tipo de evento também chegou as Escolas públicas. Se, por um lado, poderia trazer certos benefícios, por outro, preocupa o risco de obliteração da realidade vivida pela Escola.

Quando tais palestras, por exemplo, são realizadas a partir da perspectiva de que a Escola pública é uma empresa – situação recorrente –, evidencia-se um perigoso rompimento dos princípios legais que formalizam a Escola no Brasil, caracterizada pela previsão de sua função social. A Escola pública é uma instituição voltada para a socialização de saberes necessários e fundamentais para a existência de uma sociedade democrática, em que os sujeitos são capazes de construir autonomias para lidar com a realidade, tanto a partir de suas próprias experiências, como relacionando-as aos saberes formais oferecidos por estas instituições.

A Escola pública, neste caso, não poderia ser administrada a partir dos princípios de ganho e produtividade típicos da economia capitalista. Por lidar com pessoas, e não com produtos a serem moldados, estas instituições deveriam se organizar conforme as demandas da comunidade a qual está inserida e mediante e as orientações legislativa que se desdobram a partir do que prevê o Art. 205 da Constituição Federal Brasileira: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

Assim sendo, a Escola pública não poderia continuar sendo avaliada como se fosse uma empresa, por índices de produtividade, que ao quantificar a realidade faz subsumir em números frios a realização de sua função social. Deveria, ao contrário, ser avaliada pela sua capacidade de oferecer aos educandos um arcabouço de saberes que, em sintonia com as experiências individuais e coletivas, fossem capazes de contribuir para transformar o mundo vivido naquilo desejável conforme as necessidades e expectativas destes sujeitos históricos que formam a comunidade escolar, ou seja, a própria sociedade.

Ampliando um pouco mais a reflexão sobre os efeitos de tais palestras “motivacionais” em Escolas públicas, poder-se-ia questionar também a falsa ideia de que a solução para os inúmeros problemas que são enfrentados cotidianamente pela Escola passaria pela existência de uma equipe motivada e bem orientada para certo fim. Especificamente, tem-se sugerido que a resposta a tais problemas estaria na postura do profissional diante da demanda específica. Motivação, talento, competência, entusiasmo, sucesso, metas, trabalho em equipe, eficiência, resultados, superação de barreiras, sonhos, visão de águia, liderança, dom, etc. são termos usados fartamente para dizer que se existe fracasso o culpado é você que não sabe lidar eficientemente com estas condições. Ao contrário, se os resultados forem satisfatórios, foi o trabalho em equipe orientado por certas ferramentas de produtividade que possibilitou que isto fosse possível.

Nesta seara, qualquer outro elemento passa a ser considerado intruso, portanto desnecessário, para justificar os resultados positivos ou negativos produzidos pela Escola. Temas como: salário, condições de trabalho, formação inicial e continuada dos profissionais, assistência psicológica e social de educandos e profissionais, tempos e espaços democráticos, recursos materiais, acesso a tecnologias, entre tantos outros, são simplesmente desprezados em nome exclusivamente de sua motivação ou não para realizar as tarefas necessárias.

Como bem observaram o brasileiro Paulo Freire e o italiano Antonio Gramsci, nos transformamos em sujeitos quando somos capazes de criticar a realidade. Seria por meio desta crítica que produzimos abstratamente as condições para mudar a realidade vivida. Afinal, o fim social da Escola seria contribuir para que todos possam ter uma formação humana integral.

Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva
Historiador; com Mestrado na PUC Minas; autor do livro: Manga - encontro com a modernidade. Atualmente desenvolve o projeto: Escola do Conhecimento.



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