make action GIFs like this at MakeaGif
Fique por dentro
recent

Ouça agora (tocador na barra direita)

Ouça agora (tocador na barra direita)
Em fase experimental

Voltamos ao que éramos na colônia

(Delfim Netto) O retorno, nos últimos 30 anos, da economia brasileira à condição de fornecedora de alimentos e matérias-primas é inegável

Em 19 de abril, comemorou-se 200 anos desde a publicação, em 1817, do revolucionário On the Principles of Political Economy and Taxation, de David Ricardo, no qual, com uma lógica que arrebatou o mundo, foi exposta a famosa teoria das vantagens comparativas.

Ricardo construiu um exemplo numérico das vantagens comparativas com algumas hipóteses: 1. Na Inglaterra, a produção de uma unidade arbitrária de tecido usa 100 homens/hora e a produção de uma unidade arbitrária de vinho utiliza 120 homens/hora. 2. Em Portugal, a mesma quantidade de tecido exige 90 homens/hora, e a mesma unidade de vinho consome 80 homens/hora.

PUBLICIDADE

Na ausência de comércio (os dois autárquicos), os preços relativos seriam proporcionais ao tempo de trabalho (pela teoria do valor-trabalho): em Portugal, uma unidade de tecido compraria 1,125 unidade de vinho; na Inglaterra, uma unidade de tecido compraria 0,833 unidade de vinho.

Os números foram escolhidos para mostrar a vantagem comparativa, uma vez que Portugal é, em termos absolutos, mais eficiente (no uso do trabalho) do que a Inglaterra. Ele tem, entretanto, uma vantagem maior na produção de vinho, de forma que, quando o comércio se abrir, ele será exportador de vinho e importador de tecido.

É essa realocação no uso dos recursos disponíveis para cada país que produzirá um aumento da produtividade total e das margens de lucro. A poderosa lógica interna das vantagens comparativas e a sofisticação crescente dos trabalhos teóricos conquistaram os corações dos economistas “tanto quanto a Santa Inquisição conquistou a Espanha!”, disse Keynes.

Honestamente, sempre tive minhas dúvidas. O interessantíssimo curso de história ministrado pela grande Alice Canabrava, nos idos de 1950, na FEA-USP, ia do mercantilismo às razões pelas quais a Inglaterra, de protecionista, evoluiu para o free trade; à influência de Hamilton no desenvolvimento americano e à construção do Zollverein (a unificação tarifária da Alemanha em 1834), iniciada com o free trade e lentamente transformada em protecionista a partir de 1879, quando elevou as tarifas e criou subsídios às exportações.

Aquela História ensinava que sempre houve tensão entre a “lógica” das vantagens comparativas e a “realidade” dos países que, no último quartel do século XIX, revelavam-se mais bem-sucedidos em matéria de desenvolvimento econômico.

Sua primeira lição era que as “vantagens comparativas” não são destino: podiam ser construídas. A segunda era que o modelo ricardiano supunha, implicitamente, um mundo de ilhas ocupadas por tribos altruístas que se viam com simpatia.

Quanto à primeira, era claro que quem se conforma com as vantagens comparativas como destino está condenado a aceitar que seus parceiros determinem sua estrutura produtiva.

Quanto à segunda, era evidente que no mundo real – o homem – é um animal reconhecidamente territorial (pelo qual mata e morre), capaz das maiores violências com a sua própria espécie sem qualquer razão objetiva. Nele, os países são ilhas pensadas como “independentes” que se olham de forma conflituosa, com enorme desconfiança, inveja e cobiça.

O grande avanço teórico veio com um artigo de Paul Krugman (“Increasing Returns, Monopolistic Competition, and International Trade”, 1979), que, recuperando observações anteriores, juntou a economia de escala interna a empresas com uma organização produtiva de competição monopolística.

Numa joia de dez páginas mostrou que o comércio internacional não precisa, necessariamente, ser o resultado de diferenças de tecnologia ou da quantidade de recursos naturais.

Pode, simplesmente, expandir o mercado e permitir a exploração de economia de escala, com os mesmos resultados do crescimento da força de trabalho e da aglomeração regional.

O final do artigo é glorioso: “Aqui se demonstrou que um modelo claro, rigoroso e, esperamos, persuasivo pode ser construído para explicar o comércio em condições de rendimentos crescentes”. E acrescenta: “O papel da economia de escala na criação do comércio é conhecido há algum tempo, mas foi relativizado na formalização da teoria... e nos livros-texto”.

Testemunhando o retorno, nos últimos 30 anos, da economia brasileira à condição de colônia fornecedora de alimentos e matérias-primas para o mundo, é possível negá-lo? 
soudaquimanga

soudaquimanga

Nenhum comentário:

Postar um comentário

by: soudaquimanga (2011-2015) - Manga, MG. Tecnologia do Blogger.