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Como é ser um homem negro no Brasil?

(Henrique Restier da Costa Souza)  Como diz o título da música do cantor inglês (de origem Ugandense) Michael Kiwanuka: somos homens negros em um mundo branco. Mas, o que isso quer realmente dizer? Quais são as implicações dessa sentença? É o que propomos trazer nesse texto de forma introdutória e despretensiosa, porém com a sugestão de trazer alguns elementos para nos ajudar a pensar essas questões.

Atualmente, existe um grande debate no Brasil que articula diferentes marcadores sociais como: raça, gênero, classe, LGBT, etc. A intenção desse pequeno texto é fazer alguns apontamentos sobre dois destes marcadores, quais sejam, raça e gênero, pelo viés masculino. Penso ser deveras apropriada para o momento tal temática, uma vez que, em geral, o masculino negro não é debatido nesses recortes e quando aparece geralmente se apresenta de forma desqualificadora, enquanto “privilegiado” e opressor em relação ao sexo feminino, no entanto a coisa é pouco mais complexa.

Antes de adentrar propriamente nos termos do assunto, é preciso inicialmente salientar que esse não é um texto prescritivo, autoindulgente, culpabilizador e tão pouco, um pedido de perdão a quem quer que seja. É simplesmente um olhar de crítica e empatia com todos os homens negros na diáspora brasileira, que como eu, estão cada um à sua maneira, vivendo em um “mundo branco”.

O Masculino Negro desde dentro

É como um homem negro heterossexual que manifesto as reflexões aqui propostas, é através desse lugar (que são muitos) que direciono meu olhar sobre as masculinidades negras, portanto, ele é claramente voltado para o diálogo com esse grupo sociorracial e, naturalmente, com todos aqueles que buscam entender um pouco mais sobre nós e, por conseguinte, sobre si próprios.

O homem negro é aquele ser ambíguo, pois, se por um lado ele é homem, e, logo, receberia dividendos patriarcais por essa condição, por outro, é negro, sendo interditadas muitas dessas prerrogativas masculinas. O racismo, com seus mecanismos e barreiras artificiais, impede que os homens negros possam desempenhar papéis de relevância na sociedade brasileira.

Como afirma o etnólogo Carlos Moore, “sua função central, desde o início, seria regular os modos de acesso aos recursos da sociedade de maneira racialmente seletiva em função do fenótipo”. Situação delicada, uma vez que nos coloca em um lugar de “homens sem tantos poderes de homens assim”, isto é, homens emasculados socialmente, portanto, a emasculação se configura um dos processos mais centrais da construção das masculinidades negras. Então, onde se encontra o homem negro?

O corpo, o estereótipo e o falo

Grande parte das representações hegemônicas sobre os homens negros recaem sobre o nosso corpo, nos hiperssexualizando, nos desumanizando, ou seja, destituindo-nos dos prestígios, recursos e prerrogativas de sermos “homens-humanos”.

O pênis (seu tamanho e desempenho) dá a tônica nas relações entre os homens em geral, mas principalmente entre homens negros e brancos. Se por um lado se cria um aparato representacional deformador em torno da virilidade sexual do homem negro, o rebaixando a uma corporeidade quase animalesca, por outro, isso cria ressentimentos por parte dos homens brancos que veem sua hombridade ameaçada.

Não obstante, pênis não é sinônimo de falo (phallôs do grego), pois este é entendido como signo de poder, recursos, prestígio, status e acesso. Por isso que a obsessão em retratar o homem negro como macrofálico é um fetiche, como Frantz Fanon[3] coloca: “O preto representa o perigo biológico… Ter a fobia do preto é ter medo do biológico. Pois o preto não passa do biológico. É um animal”.

O investimento representacional no homem negro em estereótipos e estigmas sociais é recorrente nos conglomerados midiáticos da indústria cultural brasileira, tais como: o bandido, o vagabundo, o moleque, o bêbado, o estuprador, etc. Ora, isso faz todo o sentido, visto que o grande rival do homem branco pela masculinidade socialmente valorizada é o homem negro.

Esse processo faz parte de um embate entre masculinidades hegemônicas e subalternizadas, em que a primeira requer, para se manter hegemônica, subtrair das subalternas os símbolos de masculinidade prezados pela sociedade visando monopolizá-las. Dessa maneira o homem negro maduro, autônomo, dono de si, responsável, íntegro, pai e adulto, apesar de existir em profusão, não é representado (ou o menos possível) uma vez que oferece perigo à masculinidade hegemônica, em um confronto dissimulado, ressentido e não raro aberto.

Obviamente, falo aqui do ponto de vista estrutural, sistêmico e histórico, mas no que diz respeito às relações interpessoais existem múltiplas maneiras de interação entre negros e brancos, da sincera amizade, à inimizade mais aguda, portanto, não se pode engessar a multiplicidade do mundo social nem ignorar determinadas regularidades.

O antropólogo Rolf de Souza[4], especialista nos estudos sobre masculinidade, sustenta que:

“As representações de homens negros e brancos fazem com que estes dois grupos se coloquem em posição antagônica pela disputa pelo prestígio da masculinidade e que devido a esse embate Um homem negro que fica no caminho do homem branco da sua mission civilisatrice precisa ser desencorajado e se necessário, eliminado fisicamente”.

Essa colocação é fundamental, pois um dos grandes medos dos homens negros é sua aniquilação física. A eliminação de homens negros desestabiliza toda a comunidade negra. A lógica do Estado e da segurança privada opera através da estereotipia racista, tanto é que as estatísticas de homicídios demonstram uma verdadeira “guerra racial não declarada”, o que muitas vezes é chamada de “genocídio da juventude negra”, ou como no título do livro de Abdias do Nascimento, “O genocídio do negro brasileiro”. De qualquer forma, a profundidade com que isso afeta a psique dos homens negros e suas relações com os diversos grupos sociais ainda é um campo a ser investigado.

O homem negro em movimento

Apesar do panorama apresentado, existem milhões de homens negros que não se enquadram nas premissas e representações negativas perpetradas pela branquitude. O dividir para dominar é básico em qualquer sistema de dominação, a formação de famílias negras sólidas, saudáveis, felizes e conscientes de seu agenciamento e responsabilidade para consigo e para a sua coletividade, é a última coisa que a estrutura racial brasileira quer.

Todavia, o estreitamento da comunicação entre nós de forma conciliadora e construtiva está em curso. Noto um maior interesse nas temáticas sobre as masculinidades e o quanto o patriarcado e o machismo não nos contemplam. Percebo e participo de redes de homens negros conscientes de seu papel na luta antirracista, sobrepujando estereótipos introjetados e reafirmando essa luta em outros termos, como pais presentes, filhos amorosos, irmãos cuidadosos, maridos dedicados e homens seguros de si, em toda a sua complexidade humana.

Esse é um dos lugares favoritos que vejo esses homens e quero ver cada vez mais.

Henrique Restier da Costa Souza é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Relações Étnico-raciais pelo Centro Federal Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ)  e Doutorando em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP/UERJ).

[1] Título da música de Michael Kiwanuka; “Homem negro em um mundo branco” (tradução livre).

[2] MOORE, Carlos. A Humanidade contra si mesma na busca da sustentabilidade integral: Diversidade, Diferença e Desigualdade no Jogo Social. 2008. Disponível em:

[3] FANON, Franz. Pele negra máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

[4] SOUZA, Rolf Ribeiro de (2013). Falomaquia: Homens negros e brancos e a luta pelo prestígio da masculinidade em uma sociedade do Ocidente. Revista Antropolítica, n.34, p. 35-52.
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