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"Brasil não está em uma recessão, está em uma depressão”, diz Luis Gonzaga Belluzzo

Ao contrário das recentes declarações do governo Temer, economista diz que crise está longe de acabar

Ao contrário das recentes declarações do governo federal, como a feita pelo ministro do Fazenda Henrique Meirelles via Twitter, de que a economia brasileira está decolando após uma crise severa, economistas ouvidos pelo Brasil de Fato garantem que a crise que assola o país está longe de acabar.

“A tendência é a situação se agravar com o teto de gastos. É um equivoco achar que isso vai recuperar. A economia brasileira recebeu choque negativo de tarifas e queda de investimentos públicos. O Brasil não está em uma recessão. Ele está em uma depressão”, afirma o economista Luis Gonzaga Belluzzo.

A taxa de desemprego no Brasil no último trimestre foi de 13,6%, o que representa 14 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho, segundo levantamento divulgado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em abril deste ano.

Além disso, a perspectiva do brasileiro de que a situação pode melhorar caiu 2,7%. É a primeira queda comparativa com meses anteriores desde maio de 2016, de acordo com pesquisa Confederação Nacional da Indústria (CNI) de maio de 2017.

Para Cristina Helena de Mello, professora de economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), “estamos diante de um cenário com uma perspectiva muito lenta de recuperação. Dificilmente teremos uma recuperação ainda esse ano”, diz.

“Independentemente desse quadro político, eu não vejo no mercado privado indicadores de que a gente esteja, de fato, em vias de recuperação. Ela é muito lenta e não deve se reverter em quadros de emprego”, completa.

Segundo a PNAD, cerca de 1,2 milhão de pessoas perderam seus empregos com carteira assinada no trimestre de fevereiro de abril de 2017 em relação ao mesmo período do ano passado. Hoje, há cerca de 32,1 milhões vagas de empregos formais.

“Dificuldade enorme”

O técnico em eletrotécnica Mario Sérgio Duarte Pereira dos Santos, 35, procura emprego em sua área de atuação há três meses. Morador de Itaquaquecetuba, ele faz curso superior na área de sistemas de telecomunicação. “Está difícil. Marcam a entrevista, mas nada de retorno”, conta.

O momento político, segundo Santos, é outro fator que influencia nas decisões dos empregadores em não abrirem novos postos de trabalho. “[O momento político do país] dificulta porque os empresários não querem investir, eles não querem jogar o dinheiro assim, contratar empregado. A economia do país está instável e, para eles, não é viável”, interpreta.

Em comparação com outros momentos em que precisou recorrer ao mercado de trabalho, Santos acredita que agora há uma dificuldade ainda maior para novas contratações. “Tem muito mais gente desempregada do que três anos atrás. Hoje, a dificuldade é enorme. Aparece vaga, mas é uma em um mês. Fica nessa defasagem de mercado. É difícil”, comenta.

Para Maria Célia Luz Pereira, 57, moradora de São Caetano, a situação é ainda mais complicada. Apesar de já ter trabalhado como supervisora e encarregada de limpeza, doméstica, babá e ter cursos de auxiliar e técnico de enfermagem, ela busca há dois anos uma recolocação no mercado.

Seu filho, que está no terceiro ano de jornalismo, também está desempregado. Assim, é Pereira quem arca com todas as despesas, como a mensalidade da faculdade e o aluguel da casa onde vivem. Seu sonho é que o filho se forme para, segundo ela, ter uma vida melhor e mais tranquila que a sua.

“Estou conseguindo viver porque fiz um empréstimo para pagar as contas. Não sei como vou fazer para pagar os empréstimos”, diz.

Pereira trabalhava como doméstica, fazendo bicos, nada fixo, e agora gostaria de um trabalho com carteira de trabalho e direitos trabalhistas. “Está muito complicado. Estou até com crise de ansiedade, não esperava passar por isso. Antigamente, você procurava no jornal, ia preencher a ficha e, às vezes, já marcavam a entrevista no mesmo dia”, lembra.

Reforma trabalhista

Em geral, a população está insatisfeita com as perspectivas trazidas pela reforma trabalhista, como a prevalência da negociação coletiva sobre a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e o chamado contrato interminente, que consiste na contratação dos trabalhadores por algumas horas ou dias por mês, com recebimento de salário de acordo com a quantidade de horas trabalhadas.

Uma pesquisa encomendada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), em parceria com o Vox Populi, aponta que 68% dos entrevistados avaliam que a reforma favorece mais aos patrões do que aos próprios trabalhadores. Se ela for aprovada, 89% dos entrevistados dizem que não teriam condições de manter suas famílias.

Para João Felício, presidente da Confederação Sindical Internacional, a reforma trabalhista do governo Temer tende a aumentar ainda mais o número de empregos precários.

“Se o Estado não intervém, se o Estado não investe, se o Estado não está preocupado com essa imensa massa de desempregados e trabalhadores precários que existe hoje, não é o capital que vai resolver essa questão”, aponta.

Investimentos

Segundo Belluzzo, “o diagnóstico que produziu um tremendo desajuste na economia brasileira estava completamente errado”. Ele ressalta que, à época do governo da ex-presidenta Dilma Rousseff, os números econômicos já estavam “desacelerando”. “Mas a taxa de desemprego era das mais baixas, em torno de 6%”, comenta.

Assim, segundo o economista, o país só deixará a crise se “o estado ou os empresários, que também dependem do gasto dos outros, se animarem e gastarem, contratarem e pagarem bons salários”.

Europa e EUA

Para Belluzzo, exemplos no mundo permitem concluir que “a austeridade não funcionou". “A economia mundial não vai uma maravilha. Portugal, por exemplo, só começou a recuperar quando rompeu com a austeridade”, diz.

Dados publicados nos últimos meses pelos governos europeus apontam queda no desemprego, mas os índices seguem altos e as recuperações ainda são tímidas. Segundo dados divulgados pelo gabinete de estatística do governo da Grécia na última quinta-feira (8), a taxa de desemprego está em 22,5%. Em Portugal, a taxa se manteve em 9,8% em abril, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).

A crise que chegou aos países europeus no começo da década, motivada pelo crescente endividamento dos membros da Zona do Euro, trouxe uma enxurrada de governos neoliberais e conservadores que, se não foram eleitos, conseguiram impor via Parlamento agendas de austeridade, que resultaram em menos empregos e cidadãos com menores perspectiva de melhoras.

“O desemprego vem crescendo na Europa. Foram feitas ações de ajuste fiscal, mas o que a gente tem visto é um ajuste de produtividade”, aponta Mello, professora da PUC-SP.

Os números da Alemanha foram os melhores da Zona do Euro: a taxa de desemprego no país caiu para 5,7% e os pedidos de auxílio-desemprego caíram 9 mil em maio, após recuarem 15 mil em abril. A projeção do mercado, porém, era de queda maior, de 14.500.

Segundo o Eurostat, a taxa de desemprego na Espanha para os jovens entre 15 e 24 estava em 45% e para a faixa entre 25 e 29, 25,6%. João Felício compartilhou a visão de um sindicalista espanhol, que teria comentado com ele que a maioria deles tem formação superior. "Perdem emprego ou deixam a universidade e não conseguem uma colocação. Fazem parte de um exército de reserva que não tem emprego no seu país de origem e acabam migrando para a Argentina, para o Brasil", disse.

No caso dos Estados Unidos, Belluzzo afirma que o índice de 4,3% de desemprego, o menor em 16 anos, é influenciado pela criação de muitos empregos precários e temporários. “Os Estados Unidos está crescendo pouco, e com empregos precários. Sem contar esses empregos [precários], [o desemprego] chegaria a 14%”, aponta o Belluzzo.

João Felício ressalta porém que, mesmo o conservadorismo dos países europeus, encontra barreiras em uma sociedade que indigna com perdas de direitos.

“Estamos passando por uma fase no mundo muito difícil. Por mais que aqui na Europa tenhamos governos de direita, governos neoliberais, que colocam o Estado como mero observador, mesmo assim tem uma cultura já enraizada na sociedade que nem a Margaret Tatcher [1979-1990], na Inglaterra, conseguiu destruir”, afirma. 
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